PERCURSOS DA NARRATIVA BRASILEIRA NA CONTEMPORANEIDADE: UMA ANÁLISE DO ROMANCE O FILHO DA MÃE

Rafael Nunes Ferreira, Gínia Maria de Oliveira Gomes

Resumo


As narrativas contemporâneas caracterizam-se pela diversidade temática, pela versatilidade de formas e pela pluralidade de vozes. Debruçar-se sobre tão variada produção é tarefa árdua e exige do pesquisador uma visão multidisciplinar que muitas vezes extrapola o próprio fato literário, de modo a implicar uma revisão teórica acerca da escritura, que tenha em vista não apenas elementos literários, mas também que leve em conta aspectos sociológicos, históricos, políticos, psicanalíticos, etc. Na literatura brasileira, dentre os inúmeros assuntos tematizados, figura-se um que está associado aos deslocamentos, quase sempre compulsórios, de indivíduos ou grupos de indivíduos que migram de suas pátrias em direção a outros países. Esse movimento é resultado do acúmulo de catástrofes vivenciadas no século XX, que teve começo, segundo o historiador Eric Hobsbawm, com a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa, forçando milhões de pessoas a se deslocarem como refugiados, ou por compulsórias trocas de população entre Estados, que equivaleriam à mesma coisa (HOBSBAWM, 2010, p. 57).
A partir daí, deu-se início a um processo desenfreado que culminou num mundo também marcado por sujeitos deslocados, desenraizados, como bem definiu Tztevan Todorov (1999). Daí até mesmo ser possível se falar em uma era de refugiados, da pessoa deslocada, da imigração em massa (SAID, 2003, 47), pois, como bem observou Pierre Oullet, [o] homem não conhece mais o seu lugar, em meio século de guerras contra a Humanidade [...] Ele acabou por perder a face, a ponto de não mais o reconhecermos sob tantas caretas que o terão mascarado (OULLET, 2013, p. 146-147). As narrativas contemporâneas, enquanto manifestações de pensamento de vanguarda, capazes de apreender as mutações pelas quais a sociedade se molda ao longo do espaço-tempo, refletem os efeitos dessa nova demanda. De fato, tais obras colocam no centro do debate questões que dizem respeito a noções como identidade, alteridade, migração, exílio, diáspora, dentre outros aspectos. Nessa esteira, a obra de autores como Edward Said (2003), Eric Hobsbawm (2010), Homi Bhabha (2013), Stuart Hall (2002, 2006), Zygmunt Bauman (2001), entre outros, ilumina a reflexão crítica da produção estética das últimas décadas.
O escritor Bernardo Carvalho insere-se na geração de autores surgida nos anos 1990. Aclamado tanto pela crítica quanto pelo público, sua obra o consolidou como um dos grandes escritores brasileiros na contemporaneidade, tendo, inclusive, parte de sua produção literária traduzida para diversos idiomas. Com efeito, esse estudo tem por objetivo analisar o romance O filho da mãe (2009), sob a ótica de um sujeito contemporâneo em seus contínuos deslocamentos, que sofre por não possuir mais um lugar fixo ou protegido. A narrativa de Bernardo Carvalho é ambientada na cidade de São Petersburgo e tem como pano de fundo a segunda guerra da Tchetchênia, em 2003. A obra é protagonizada pelos personagens Andrei e Ruslan, este é originário da cidade de Grosny, na Tchetchênia, aquele, nascido em Vladivostok, na Rússia. Ambos os personagens são marcados por uma existência caracterizada pelas agruras da condição de estrangeiro.

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